Resenha/Comentário – Sangue Quente

Nunca havia lido qualquer livro de zumbis, e mesmo com as criticas que ouvi de apaixonados por zumbis nojentos sobre esse livro fiquei com mais vontade de lê-lo ainda. E aqui vai o que achei dele.

SANGUE_QUENTESangue Quente – Isaac Marion
Leya – Pág256

R é um jovem vivendo uma crise existencial – ele é um zumbi. Perambula por uma América destruída pela guerra, colapso social e a fome voraz de seus companheiros mortos-vivos, mas ele busca mais do que sangue e cérebros. Ele consegue pronunciar apenas algumas sílabas, mas ele é profundo, cheio de pensamentos e saudade. Não tem recordações, nem identidade, nem pulso, mas ele tem sonhos. Após vivenciar as memórias de um adolescente enquanto devorava seu cérebro, R faz uma escolha inesperada, que começa com uma relação tensa, desajeitada e estranhamente doce com a namorada de sua vítima. Julie é uma explosão de cores na paisagem triste e cinzenta que envolve a “vida” de R e sua decisão de protegê-la irá transformar não só ele, mas também seus companheiros mortos-vivos, e talvez o mundo inteiro. Assustador, engraçado e surpreendentemente comovente, Sangue Quente fala sobre estar vivo, estando morto, e a tênue linha que os separa.

“Quando você chega ao fim do mundo, não importa muito que caminho pegou para chegar lá.” – Pág 16
“Todas as merdas que as pessoas fazem com elas mesmas… pode ser tudo por causa da mesma coisa, sabia? Apenas um jeito de afogar a própria voz.  Matar suas memórias sem ter de se matar.” – Pág 69
“O mundo sempre foi o mesmo, depende de você saber o que fará nele.” – Pág 123
“[…] quando se tem um peso destes na vida, ou você começa a ver as coisas de uma nova perspectiva, ou simplesmente afunda.” – Pág 185
“Mas que coisa maravilhosa não começou sendo assustadora?” – Pág 244

O livro é todo narrado por R, sim pelo zumbi, e é incrível pois ele fala muito pouco mas pensa muito profundamente principalmente sobre a vida, sobre estar vivo.  R não se lembra de nada sobre sua vida antes de se tornar zumbi, só lembra a primeira letra de seu nome. Os zumbis de Marion quando se alimentam de cérebros conseguem “ver” as memorias da pessoa que mataram. E é assim que R conhece Julie. Em um ataque R mata Perry, namorado de Julie, e ao ver as memorias de Perry ele sente um enorme carinho por Julie, e vontade de protege-la, salvando-a do ataque.

Ao longo do livro não vemos memorias de R, vemos as memorias de Perry, como ele era e quem ele se tornou, o que o cenário pós apocalíptico zumbi fez com ele, como desconstruiu seu sonhos até matar suas esperanças. Em contra partida conhecemos Julie pelos olhos de Perry, e aos poucos pelos de R, que se apaixona por Julie.

O livro é realmente muito lindo, juro que me impressionei muito com a historia com o ponto de vista, os questionamentos. O livro também faz referencias lindas a musicas antigas, R coleciona vinis, por achar o som mais “vivo” e muitas vezes se expressa pela musica. O livro também tem um ótimo toque de humor, porém por vezes utiliza-se de linguagem chula, mas nada que comprometa verdadeiramente a narrativa.

O filme inspirado no livro foi lançado no inicio de Fevereiro. Sobre a adaptação o que mais me irritou foi o titulo dado aqui no Brasil, enquanto nos EUA o filme foi lançado como mesmo titulo do livro (Warm Blood) aqui o titulo foi traduzido para “Meu namorado é um zumbi”. Sério isso é jogar bilheteria fora, pra mim isso já eliminou metade das pessoas que talvez focem ver o filme, sem nunca ter ouvido falar do livro.

Mas em fim o filme mantem o humor do livro, o tipo de linguagem, e no geral a história. Porém reduz muito da participação de Perry na narrativa, cortando assim muito do que o livro fala, toda a questão existencial que eu achei muito linda no livro. Não fica claro no filme também quem são os Ossudos (Bones), o que fica bem mais claro no livro.  E essa cena do livro junto com a de R no quarto da Julie lendo a musica Imagine me magoarão muito ao serem cortadas. Além claro de Perry não ter sido nada, e a mãe de Julie apenas uma citação.

O filme focou muito no romance de Julie e R, o que ficou muito legal na tela, mas cortou muito da historia de zumbi por trás desse romance.  Além de cortar a questão existencial que a historia passa tão lindamente no livro. O livro é relativamente curto em questão de páginas, e a adaptação ficou boa, porém poderia ter sido melhor, e ter abrangido um publico maior se a adaptação não tivesse apenas um foco.

Na questão existencial o livro me lembrou muito o livro A Hospedeira. Sangue Quente fala sobre a própria questão de vida e o significado dela já  A Hospedeira fala muito da questão de alma  [Leia mais aqui]. Porém ambas as obras se aproximam muito. Lembrando que o filme A Hospedeira chega as telonas no final do mês (29/03/2013).

No geral? O filme é muito legal, não é tão completo quanto o livro mas vale a pena ver. Porém o livro… esse é realmente de mais. Não que eu tenha me afeiçoado por zumbis depois de lê-lo, mas me afeiçoei muito por R e Perry além do próprio autor Isaac Marion, do qual estou realmente curiosa para ler outros livros.

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